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COVID-19 dá um #radouken nos sistemas econômicos

*Christian Bundt

Na TerradoNunca (meu país fictício), a pandemia Covid-19 também chegou. Não foi sentida, pois a população já praticava hábitos apurados de higiene. Além do mais, 100% das residências e empresas têm água encanada e esgoto, com estações de tratamento e incineradores de lixo em cada bairro de todas as cidades. Havia muitos leitos de UTI disponíveis, tanto nos hospitais de bairro quanto nos regionais, assim como estoques públicos de emergência com medicamentos, máscaras e outros aparatos de proteção espalhados por todo o país. Os serviços médicos que estavam agendados antes da chegada da Covid-19 nem foram alterados. As empresas e as escolas não fecharam, apenas continuaram a praticar os cuidados básicos com a higiene, criando mais alguns anteparos ao vírus, como o uso de máscaras, câmeras térmicas e a lavagem de locais públicos. O presidente Peter Pan orientou que os cidadãos e cidadãs que pudessem ficar em casa por três meses deveriam fazê-lo por precaução, o que foi plenamente atendido. As empresas, por conta própria, intensificaram o uso das tecnologias para possibilitar o remote work. Os bancos se socorrem no governo, já que têm seus lucros limitados pela legislação já há anos, sem alterar suas operações. Os grandes eventos foram adiados, mas os organizadores e outras empresas de serviços pagavam bons seguros, o que amenizou o impacto. E todos foram felizes para sempre!

Na minha história fictícia apresentei diversos aspectos que vimos afetadíssimos no Brasil. Acredito que o principal acionamento do período pré e durante a Covid-19 é o medo. Medo de superlotar os hospitais (daí os deixamos subutilizados por um bom período), medo de morrer, medo de contaminar os outros, ser contaminado… e o medo nos leva a refletir sobre prioridades.

Pareço um tanto frio nas palavras? Não, apenas racional. As medidas de afastamento social implementadas do governo foram acertadas. A curva de contágio, principalmente nas cidades do interior, está menor que nos países onde a pandemia se apresentou de forma mais severa. Algumas cidades como Florianópolis, São Paulo, Manaus e Fortaleza estão com a luz vermelha acesa. Quase não ouvimos notícias brasileiras de falta de leitos, de corpos jogados nas calçadas, entre outras desgraças, conforme vimos em outros países. Graças a Deus!

Mas a crise mudará alguns hábitos nas nossas casas e em nossas empresas. Nas casas, certamente o cuidado com a higiene e com receber visitas será diferente; as simples idas ao mercado também estão sendo alteradas. As compras de outros itens não essenciais também ficaram meio de lado. Mas ainda é cedo para imaginar os efeitos da pandemia no nosso dia a dia. Já no day by day empresarial, esse sim já podemos “futurologizar”. Faço aqui o meu exercício para algumas poucas áreas, dividindo em tópicos apenas por questões didáticas:

Digitalização

Começo por este porque ele vai dirigir as mudanças em outros. O uso do home office forçado mostrou que é possível fazer a distância muitas coisas que acreditávamos serem melhor presencialmente. E até podem continuar sendo, mas foi mais produtivo a distância, em todos os aspectos men$urávei$. Então… não volta mais! Isso foi com a gestão de projetos, com reuniões entre setores, com vendas e outros segmentos da atividade empresarial. Não volta mais (obviamente há setores em que isso é impossível)!

Hábitos de consumo (B2B, B2C e B2G)

A relação com os fornecedores será diferente, pois forçosamente nasceram os canais de vendas/assistência que estavam em gestação há tempos em muitas empresas. Quem já os tinha “na adolescência”, surfou a onda. Aqui ressalto a questão da parceria, da confiança e da transparência. Não basta vender, tem que entregar no prazo e com qualidade! Já o B2C ganhou um empurrão e tanto, fazendo diversos incrédulos experimentarem o método. E pode ter certeza que a maioria gostou. O B2G, por força de decretos de emergência, também tomou corpo e vai continuar em muitos lugares. Outro ponto afetado é o padrão de consumo: os tipos, quantidades e qualidade se alteram em épocas de crise e podem permanecer depois dela por um bom tempo. Produto substitutos, complementares e novos usos surgem em momentos de crise. Mas lembremos que o consumidor fica acuado neste período e depois dele por um bom tempo, com pouca disposição para consumir o que não é necessário (de fato) nem para realizar investimentos em bens duráveis ou imóveis. Nas empresas, o caixa ganha foco e as despesas naturalmente recuam, descobrindo-se novas formas de fazer os mesmos processos com menos.

Cadeia logística

Os imbricados e “eficientes” sistemas logísticos mundiais estão se vendo atordoados com a proibição de exportações de materiais de saúde e “apropriação” de fábricas pelos governos de alguns países. Empresas que tinham armazéns em outros países tiveram muitas dificuldades, como a sueca Mölnlycke Health Care, que se viu impedida de retirar seus estoques de máscaras da França. O espírito just in time foi afetado drasticamente pela pandemia. Importante lembrar que a qualidade da tecnologia é dada pelo contexto, portanto, o que era excelente, de uma hora para outra pode ser péssimo. As aspas na palavra eficientes do começo deste parágrafo ilustram a situação.

Gestão de riscos

Provavelmente a pandemia e outras situações como essa passem a constar na gestão de risco dos países e das empresas (globais e locais); as condições de fornecimento e o fortalecimento dos serviços logísticos criaram as nem sempre verdadeiras condições de segurança, o que permitiu o afrouxamento da análise. Neste ponto, as posições de caixa, estoques e cadeia de fornecedores devem ser afetados diretamente nos planejamentos empresarias e governamentais. Observemos as práticas de gestão de riscos dos grandes eventos mundiais como os torneios de tênis Grand Slam e as Olimpíadas, que tinham seguro contra este tipo de acontecimento: os prejuízos da Federação Internacional de Tênis, do Comitê Olímpico Internacional e de suas representações em diversos países serão bem menores se é que existirão. Já para os prejuízos da cadeia afetada, não há seguro que cubra a extensão dos danos, principalmente para o setor de turismo, já afetado diretamente pela pandemia.

Dívida pública e privada

As novas despesas do período de pandemia vão aumentar a dívida pública e a falta de vendas de muitos setores aumentará as tomadas privadas. O déficit fiscal deve ultrapassar os quase R$150 bilhões previstos (ainda não é possível mensurar). Mas nesse momento as despesas com a pandemia são necessárias. Novamente e mais rapidamente será necessário falar das reformas de produtividade (administrativa e tributária, por exemplo) e concessões/privatizações, pois a pandemia as adiou. Essas reformas vão ser importantíssimas no reequilíbrio fiscal (já eram antes da pandemia). Aqui os três poderes precisam criar uma agenda séria, para mexer nos benefícios e despesas correntes supérfluas dos três poderes (muitíssimo além do necessário). Já as empresas com queda nas vendas, principalmente as MPE, vão tomar crédito para passar o período (as que tiverem cadastro para isso). Apesar de todo auxílio estatal para pagamento de parte dos salários e financiamentos de capital, muitas vão falir, principalmente MPE.

Agronegócio

No setor agropecuário, a parada quase não existe na lavoura e na criação. Mas há dificuldades logísticas para o comércio exterior. A depender da evolução da doença, isso pode ficar crítico. O setor também foi afetado pela digitalização, principalmente nos serviços ‘de escritório’, como cotações, comercialização, rastreamento e fretes, por exemplo, e a assistência técnica da pecuária também ganhou impulso para o uso dos meios digitais. Normalmente eram serviços que já podiam ser feitos a distância ou já havia infraestrutura para isso e receberam um empurrão da Covid-19, que deve aumentar a multicanalidade comercial do setor.

O agro brasileiro pode se beneficiar na saída da crise, em função das condições sanitárias, principalmente na pecuária. O Covid-19 é doença nascida nos chamados mercados molhados da China. No Brasil praticamente não existe esse tipo de mercado e a forte integração entre produtor e indústria dá enormes boas condições sanitárias, o que será maior vantagem daqui para frente. Ou seja, as exigências sanitárias devem aumentar mundo a fora. O Brasil tem condições de liderar esse debate no mundo.

Já a agricultura também deve ter vantagem competitiva. O Brasil é um dos principais players na produção e comercialização de alimentos em todo o planeta. E, neste caso, temos vantagem no período das principais safras, que no hemisfério norte são plantadas no segundo trimestre e colhidas mais para o final do ano. No Brasil, colhemos a maioria até o primeiro trimestre do ano e plantamos mais para o final do ano. Outro ponto importante é que diversos países estão distribuindo alimentos, como a Índia, o que vai demandar enormes quantidades. Outro problema é a possível crise alimentar que é prevista pela OMC em função da Covid-19; particularmente não creio nela, pois acho que a variação de preço vai compensar as atividades mais locais e as dificuldades logísticas. O crédito rural será aprimorado e o produtor irá se beneficiar com novos financiamentos e alongamento de dívidas.

O estado brasileiro passará por dura prova no momento seguinte à crise. Endividado, com falta de confiança dos consumidores e produtores, talvez enfraquecido pela proximidade de novas eleições, o governo terá que se reinventar em processos (para cortar gastos) e fazer muita força para as privatizações e concessões ocorrerem rapidamente. Espero que não aumente impostos. Talvez a solução passe por “imprimir dinheiro”.

Ponto de atenção são as possíveis M&A, naturais nos períodos pós-crise, e o acordo de comércio internacional entre Estados Unidos e China, que deve atrapalhar a vida do mercado agropecuário brasileiro. O Covid-19 atrasou algumas práticas previstas no acordo, mas logo elas virão e trarão muitas dores de cabeça por aqui.

De tudo, talvez a crise nos ajude a perceber que consumimos demais, que nossa distribuição de renda é muito ruim e que não temos contingência nem capacidade para enfrentar uma crise como a provocada pela Covid-19. E que essa percepção desperte nas lideranças vontade de fazer diferente, com mais atenção ao que interessa. Está sendo ruim demais ver tudo quase parado em função da fragilidade de nossos sistemas de saúde e sanitário. Não conseguimos fazer boa defesa ao #radouken do Covid-19. Para terminar, já que estamos em casa, recomendo a leitura de Hard things about hard things, de Ben Horowitz. Uma espécie de bíblia para os tempos de Covid-19.

*Christian Bundt é palestrante da RCA Educação na área de Economia. Ampla experiência na área de planejamento e finanças empresariais e públicas, já participou como instrutor e consultor de projetos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento e ONU no Brasil. Membro do Conselho Deliberativo da Associação Comercial, Industrial, Agrícola e de Prestação de Serviços de São José dos Pinhais/PR, membro do Comitê de Crédito da Sociedade Garantidora de Crédito Garantisul.

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